Autor: Ricardo Robinson Campomanes Santana Resumo: Esta dissertação analisa, sob uma perspectiva filosófica, a prática científica na Física a partir dos modelos científicos. Para isso, coloca em diálogo a concepção de modelos proposta por Mario Bunge com a Metodologia dos Programas de Investigação Científica (MPIC) de Imre Lakatos, buscando compreender tanto a estrutura epistemológica dos modelos quanto sua dinâmica histórica no interior da ciência. Inicialmente, são abordadas as concepções de ciência desses autores, destacando seus compromissos com o realismo científico, a racionalidade, a objetividade e a falibilidade do conhecimento. Em Bunge, enfatiza-se a distinção entre teoria geral, modelo teórico e objeto-modelo, segundo a qual os modelos desempenham um papel mediador essencial entre abstrações teóricas e sistemas reais, sendo centrais para a explicação e a testagem empírica dos fenômenos. Em seguida, propõe-se uma interpretação do papel dos modelos na MPIC de Lakatos. Embora Lakatos não tenha formulado explicitamente uma teoria dos modelos, argumenta-se que eles exercem função estratégica na heurística positiva dos programas de investigação, orientando a formulação de hipóteses, a resposta a anomalias e o desenvolvimento progressivo do conhecimento científico. Essa interpretação é ilustrada por meio da análise do programa gravitacional newtoniano e da discussão sobre modelos iniciais e aprimoramento teórico. O arcabouço conceitual desenvolvido é então aplicado a estudos de caso da Física, em particular aos modelos da mola helicoidal e do escoamento de fluidos. Esses casos evidenciam um processo de amadurecimento epistemológico caracterizado pela transição de modelos predominantemente descritivos para modelos mais estruturados, capazes de incorporar mecanismos internos relevantes e ampliar o poder explicativo dos modelos. Além disso, a MPIC é empregada para interpretar o conjunto articulado de modelos associados ao estudo das molas — o grupo-modelo de molas — como um programa de investigação científica, indicando que práticas consolidadas da chamada ciência normal também podem ser analisadas de modo frutífero em termos lakatosianos. Por fim, discutem-se as implicações epistemológicas e educacionais desses resultados, defendendo que a explicitação do papel dos modelos favorece uma compreensão mais crítica da ciência e aproxima o ensino de Física da prática científica efetiva.