Imagens sem aura: montagem e fragmento na estética de Walter Benjamin

Autora: Aline Ferreira Silveira Resumo:A reflexão estética de Walter Benjamin, em sua confrontação com a modernidade, identifica no cinema a expressão máxima de uma transformação radical na experiência sensível. Partindo do célebre conceito de aura — definida como a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja —, investiga-se como a reprodutibilidade técnica, em especial a linguagem cinematográfica, promove sua dissolução. Esse declínio,
no entanto, longe de representar uma simples perda, abre um campo de novas possibilidades para a arte. Do exame da modernidade como um mundo regido pelo fetichismo da mercadoria, onde se observa um processo paradoxal: enquanto os objetos são auratizados, a arte é dessacralizada. Nesse contexto, a reprodutibilidade técnica não
apenas desloca a obra de arte do ritual para a política, como também altera profundamente as estruturas da percepção. A Erfahrung, experiência rica e acumulativa, é progressivamente substituída pela Erlebnis, vivência imediata e fragmentada, marcada pelo choque constante da vida urbana e fabril. É precisamente nesse território da
percepção traumatizada que o cinema emerge não como um agente passivo, mas como uma forma de resposta. Sua estética, fundamentada na montagem, no fragmento e na sucessão de imagens, incorpora o choque como princípio formal. Ao fazê-lo, a recepção cinematográfica — coletiva, tátil e distraída — oferece um terreno privilegiado para
reeducar o aparelho perceptivo anestesiado pelo turbilhão moderno. A análise culmina na defesa de que o cinema, enquanto arte sem aura, pode operar como um instrumento de despertar coletivo, convertendo as imagens oníricas do sonho capitalista em imagens dialéticas capazes de mobilizar uma consciência crítica e política.